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Da revista “discutindo Filosofia” ano 1 nº 1Tessa Moura Lacerda escreveu um artigo intitulado Questões de Responsabilidade e debruça-se sobre a obra do filósofo Leibniz para tratar de discussão com semelhança relacionada a liberdade do ser humano, se o comportamento é determinado, etc.
Valendo-me deste artigo, e acreditando que Leibniz argumenta de forma consistente a questão da responsabilidade com liberdade; somando-se a um pouco de experiência adquirida em grupo de apoio a dependentes químicos e alcoólicos me coloco a pensar muito próximo dele, o artigo, e do filósofo.
Lacerda, no livro Discurso de Metafísica e Outros Textos, afirma : “meu ato presente de escrever”, a movimentar as mãos sobre o teclado do computador, apertar as teclas, a usar meus olhos para ler o que está escrito etc. A série das causas eficientes diz respeito, portanto, ao meu corpo e aos movimentos que realizo com ele. São movimentos mecânicos como movimentos de uma máquina. Ou seja, cada vez que vou apertar uma tecla não preciso parar para pensar como farei isso. Poderíamos dizer, já que o corpo pode ser comparado a uma máquina, que são movimentos automáticos.
E “por que há uma infinidade de figuras e movimentos passados e presentes que entram na causa eficiente desse meu ato presente”? Porque tudo o que meu corpo viveu até o presente momento, as relações que experimentou com outros corpos, tudo o que, em certo sentido, o corpo aprendeu a fazer ao longo da minha vida, determina ou é causa de seu movimento atual.
Mas paralela a essa série de causas eficientes, há uma segunda, a série das causas finais, “uma infinidade de pequenas inclinações e disposições de minha alma, presentes e passadas” que me levam a escrever (a ingerir uma bebida alcoólica, droga, roubar etc.) neste momento. Se escrevo neste momento, é porque desejo fazer isso e há uma infinidade de razões para explicar esse desejo.
A minha história de vida inteira está implicada nesta ação presente. Todas as escolhas que fiz ao longo da vida se tornaram causa determinante de minha ação. Assim nenhuma escolha deve ser considerada “arbitrária” ou isolada do contexto em que vivo e vivi. Não há uma liberdade de indiferença, diria Leibniz: "Diante de uma decisão a ser tomada, mesmo a mais simples, como sentar e escrever um texto, nossa alma tem uma inclinação espontânea que a determina escolher aquilo que efetivamente escolhe. A série das causas finais diz respeito, pois, à minha alma, não ao meu corpo, e dizemos que são “finais” porque o movimento próprio ao desejo é buscar um fim, agir visando a um fim. Este fim está sempre ligado ao meu bem-estar, à minha felicidade". (felicidade que é momentânea, no sentido de que o objeto do desejo poderá ser trocado)
O que é ser livre ?
Essas duas séries, das causas eficientes e a das causas finais, são séries paralelas, o que significa que os movimentos do corpo exprimem os desejos da alma e vice-versa, as inclinações da alma correspondem aos movimentos do corpo. Ora, mas se há uma infinidade de movimentos presentes e passados que determinam meu corpo agir agora e uma infinidade de inclinações e disposições da alma que determinam a agir como age, se tudo é determinado, como posso ser responsável pelo que faço? Poderíamos pensar: só seríamos responsáveis se fôssemos livres para fazer o que bem entendêssemos...
Leibniz define a liberdade com base em três características:
Uma ação livre é aquela que é ao mesmo tempo:
a-) Contingente = eventual, incerta.
A contingência se opõe à necessidade, não à determinação. Minha ação presente é contingente porque seu oposto é possível, antes da tomada de decisão. Eu poderia decidir não escrever agora, não é uma hipótese absurda. Voar seria hipótese absurda.
Sentar no diante do computador para não escrever é uma possibilidade. Uma vez que decidi escrever, a possibilidade de não escrever deixa de ser possível. Mas não por ser uma possibilidade lógica, uma coisa contraditória, um absurdo, e sim porque simplesmente estou escrevendo. Uma vez escrevendo, sei que estava determinado a fazer isso, mas jamais fui determinado por uma necessidade absoluta, e isso porque as leis que regem o mundo são leis contingentes. Na verdade, antes de pensar como as coisas funcionam no mundo, podemos pensar que o próprio mundo é contingente, ou seja, o mundo poderia não existir, não é necessário que ele exista. Para Leibniz o mundo é expressão da vontade de Deus, criador que escolheu criar - mas poderia não ter criado. Nada era possibilidade antes da criação do mundo e mundos diferentes também eram possíveis.
Se o mundo e todas as leis que regem o mundo são contingentes, tudo que faço em minha vida é contingente, embora tudo esteja determinado.
b-) Espontânea.
Uma ação é espontânea quando o princípio de determinação dessa ação está naquele que age - não nas externas. Para Leibniz, todas se explicam pela noção do indivíduo agente. Tudo que faço depende de mim, daquilo que me define como indivíduo
c-) Refletida =ajuizada, pensada.
Jamais conseguiremos iluminar plenamente as razões obscuras de nossos desejos, mas pela reflexão temos a possibilidade de esclarecer em parte nossas inclinações e,sobretudo nos propor novos fins em nossas ações. O fim que buscamos é a felicidade, mas há muitas maneiras de pensar a felicidade – isso, porém, é outra história.
Sócrates transformou em lema a frase escrita no pórtico do templo de Delfos. Poderíamos até dizer que, ao explicar a responsabilidade, Leibniz nada mais faz que reescrever em tintas modernas essa frase: ”Conhece-te a ti mesmo”
Conclusão:
1- Podemos perceber o que é o comportamento humano. Que existe uma complexidade de fatores envolvidos.
2- É aceitável, sim, adotar o modelo experimental para estudá-lo.
3- É possível explicar os acontecimentos a partir de eventos externos, pelas ações espontâneas do indivíduo.
4- É aceitável prever e controlar comportamentos humanos. O que distingue uma ação livre de uma simplesmente espontânea é a possibilidade de refletir sobre ela, e essa possibilidade é dada apenas aos seres racionais.
5- Os homens têm a capacidade de pensarem sua ação e saber por que agem, por que escolhem o que efetivamente escolhem. Baseado em que explicações? É que na maior parte do tempo agimos sem pensar, seguindo nossas inclinações naturais, mas temos sempre a possibilidade de esclarecer os motivos de nossas ações, as causa que determinam nosso desejo. Como há uma infinidade de movimentos e uma infinidade de disposições e inclinações da alma que causam a nossa ação presente, a reflexão poderia ir ao infinito e seríamos condenados à inércia.
Pelas razões expostas concluímos que somos responsáveis por nossas ações porque somos livres. E somos livres porque podemos refletir sobre o que fazemos e o que queremos fazer.
Um abraço e até mais.
Autor: Francisco Carlos Baggio
publicado em 18/08/2010 às 14h23
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